A Mão Esquerda
O nosso destino é admirar, não é saber - Joseph Joubert
Quarta-feira, Março 19, 2008
Segunda-feira, Outubro 08, 2007
Superstição
Os sinais exteriores são os amuletos que se transformaram em adornos e jóias e vivem na elegância universal dos nossos dias.
Essa legítima defesa estende-se às zonas mais íntimas do raciocínio humano e age independente de sua acção e rumo.
Por exemplo:
Por pensamento – Fazer três pedidos quando se vê uma estrela cadente;
Por palavras – Dizer “O diabo seja surdo!” quando alguém se referir a uma desgraça acontecida a outra pessoa;
Se isto acontecer, deve-se fazer aquilo para prevenir o mal, ou realizar certas práticas, ou trazer objectos especiais.
Para evitar o azar, convém bater na madeira ou fazer figas com a mão.
Daí o apelo a talismãs, amuletos, orações e todo um arsenal supersticioso, muitos dos quais servem não só para nos defender do azar ou mau-olhado, como para projectá-lo nos inimigos.
Por exemplo, acreditar em bruxas, almas penadas, fantasmas, não é superstição.
Superstição é quando uma pessoa atribui a certos factos, ou criaturas, animais ou coisas, poderes maléficos ou benéficos, dependendo de circunstâncias variáveis.
Ex.: ver um gato preto não tem importância, mas se ele correr na nossa direcção é que dá azar.
Bater na madeira e fazer figas livra-nos do azar.
Mania é "uma excentricidade, extravagância, gosto exagerado ou imoderado por alguma coisa; obsessão, prática repetitiva.”
A partir do momento em que passamos a ser dominados e perseguídos pela mania, sem conseguirmos resistir-lhe, então deixa de ser saudável e passa a ser um comportamento doentio.
Quantas manias vocês têm, normais ou exageradas?
Sento 13 pessoas à mesa, cruzo-me com o meu gato preto todos os dias, paciência se parti um espelho, ignoro aquelas cadeias irritantes de mensagens estúpidas para enviar a x pessoas, não relaciono nada disso com azar.
Zeca Peres
Terça-feira, Maio 08, 2007
Sábado, Dezembro 09, 2006
Elevadores
Agora que já disse algumas palavras mais finas, cheguemos ao cerne da questão (não consigo parar).
Reparei no outro dia algo que um amigo meu me referiu logo a seguir:
Num elevador, ninguém olha em frente.
Temos aqueles indivíduos que olham para o chão, como que numa tentativa de encontrar uma lente de contacto perdida.
Temos também aqueles que olham para cima, admirando aquelas grades de ventilação e lâmpadas fluorescentes que iluminam o espaço, olhando sempre com um olhar bastante crítico, semelhante áquele verificados por gente que não dintingue um Chardonnay de uma copo de vinagre, quando prova um vinho num restaurante fino.
Temos também aqueles que, numa tentativa de parecer mais discretos, lêem com um ar muito interessado aquelas placas nas paredes, cortesia da Otis, Thyssen e demais, como que numa tentativa de saber de cor a lotação e peso máximo da máquina.
Tudo isto acontece devido a duas situações.
Se alguém for sozinho no elevador com gente que desconhece, olhá-los nos olhos assume um carácter de desafio primitivo, quase animal, sendo quase um pedido para despir o casaco e iniciar já ali uma recriação de uma qualquer cena de Rocky.
Se, por outro lado, a pessoa em questão for acompanhada por amigos para o elevador já povoado, um olhar nos olhos do amigo traz inevitavelmente uma gargalhada incontrolável, como só acontece nas situações menos próprias. Assim, todo o contacto visual num elevador é sempre algo a evitar.
Temos também outro acontecimento num elevador:
O cerco.
Falo-vos daquela situação em que, estando já o elevador cheio quando se entra e, tendo tomado todos os presentes as suas posições junto às paredes, resta apenas um local de pousio:
O meio.
Quando alguém é forçado a ficar no meio, o desconforto de um elevador cresce exponencialmente, tanto numa tentativa de não virar as costas a ninguém, como o ridículo de estar a ser observado jocosamente por todos os presentes.
Assim, o pobre desgraçado parece ter entrado num filme do mítico Steven Segal, em que todos os vilões formam um círculo para tirar a rifa para atacarem à vez o herói.
É giro pensar nestas coisas e lanço aqui um apelo para que sugiram e pensem em estratégias para superar este desconforto.
Zeca Peres
Domingo, Outubro 01, 2006
As primeiras e únicas
Dois bilhetes para o terreiro do paço, s.f.f.
Quantos anos têm o miúdo?
6 Anos.
Se o levar ao colo não paga.
Obrigado.
É muito longe?
Estamos quase a chegar, vamos sair na próxima paragem.
Tem cuidado onde pões os pés, isto está escorregadio.
Pai, pai olha golfinhos.
Vamos lá para cima que se vê melhor.
Isto aqui é bem melhor.
Obrigado pelo passeio, pai.
Que é isto? Fiz algum mal para me levar duas bofetadas?
Nunca me tinha batido!?
As bofetadas que levas-te foi por duas razões.
Duas?
Uma por cuspires a outra por ter sido contra o vento.
Zeca Peres
Quinta-feira, Setembro 21, 2006
Terça-feira, Agosto 29, 2006
Talvez

talvez esta espuma branca
além
venha falar das viagens
por fazer
talvez apenas se deixe
amar ao vento
num abraço de fervor
talvez seja apenas sal
excessivamente dor
que o rumor das águas
chorem em segredo
talvez só o labor sagrado
das marés
um excesso de vida
a esmorecer
talvez...
como a paixão que
nasce onda e desmaia
a nossos pés
na ânsia de se perder
Zeca Peres
Quarta-feira, Agosto 16, 2006
Terça-feira, Agosto 15, 2006
Sábado, Agosto 12, 2006
Segunda-feira, Julho 10, 2006
Escrever todos os dias

Escreve-se escrevendo, e escrevendo aprende-se a escrever.
Escrever todos os dias faz assim todo o sentido.
Escreve-se para os outros, e daí a importância da publicação e do sucesso, mas escreve-se, antes de mais, porque não se pode deixar de escrever, porque a escrita é uma necessidade que precisa de ser satisfeita.
Confesso que tenho com a escrita um relacionamento difícil.
Talvez porque comecei a escrever aos cinquenta anos, talvez porque mais importante que escrever é, para mim, imaginar.
Umas vezes espero de mais da escrita, outras de menos.
No entretanto, ao não escrever, sinto-me mal.
Mas valia escrever todos os dias, sem nada esperar.
Escrever todos os dias.
Ora aí está uma boa ideia. Porquê?
Porque escrever faz-me bem, ou, dito de outra forma, evita que me sinta pior.
Quinta-feira, Maio 25, 2006
A Guerra
Imagem Daqui

Não, não vou falar do Iraque, nem tão pouco da Somália e muito menos na Rita Guerra.
Falarei sim das noites de sábado à noite.
É engraçado.Eu vejo essas noites como uma Guerra.
De um lado os Homens, pseudo-machos latinos, com a pinta que são os maiores e engatatões por natureza.
Do outro lado as Mulheres, pseudo-fashion, com a pinta de que elas é que escolhem quem querem.
As armas:
- Do lado Masculino: Cabelo com gel; perfume caro; Roupa lavada, justa; killer look; bebida cara, de preferência Whisky.
- Do lado Feminino: Cabelo com aquele corte fashion; batom suave brilhante; perfume penetrante; decotes pronunciados; sorriso doce; bebida com pouco teor de álcool.
Local da Guerra:
Discoteca.
Tácticas:
- Do lado Masculino: Encostar-se ao bar, copo numa mão, a outra no bolso; visão tipo radar a percorrer a pista; olhos semicerrados; sorriso malandro.
- Do lado Feminino: Ir para a pista, dançar de uma forma diferente, mas discreta ao mesmo tempo, sorrindo despreocupadamente por saber que há alguém de olho nela.
Depois há a abordagem, normalmente feita pelo homem (e normalmente mal conseguida) do género:
- Vi-te a dançar na pista e danças muito bem, sou o Dionísio e tu?
- Eh pá... vi-te ali... e senti que tinha de te conhecer.
- Tão?! Como é que é!?
No meio de tantos falhanços lá há um que dá certo. Conhecem-se, perguntam de onde são, o que fazem, e passados 2 minutos já está o pseudo-engatatão a pedir o número de telemóvel. Hoje em dia não podemos fazer prisioneiros, guerra é guerra. Temos de ser rápidos, claro!Se a coisa correr bem, bebem uns copos, saem juntos da disco e acabam no banco de trás de um Fiat Uno, ou Opel Corsa. Passados 5 minutos ela sai, ajeita-se, dizendo que isto nunca lhe tinha acontecido, que ele era formidável e que lhe ligava (mas não o vai fazer). Ele fica com o sentido de dever cumprido, papo inchado por lhe ter dado os melhores 5 minutos da vida dela, mas não espera que ela ligue.Ambos vão para casa vazios por dentro.
O mais engraçado é que na semana seguinte, preparam-se exactamente da mesma forma, vão para o mesmo local, agem da mesma maneira. Ao reencontrarem-se resta um acenar de cabeça ao longe, em sinal de que o passado já foi.
Zeca Peres
Terça-feira, Abril 25, 2006
Só para relembrar e nunca esquecer
A tua mulher, namorada, amante, amiga, precisam que lhe dês atenção.
Olha para elas com meiguice.
Converssa com elas.
Sente o que elas tem para te dizer.
Beija-as com carinho e em qualquer lugar.
Senta-as no teu colo e conta-lhe uma história.
Quando andares com elas na rua, vai de mão dada.
Deixa ser elas a comandar no que lhe der na gana.
Quando acordares vais ver que o teu olhar é mais meigo.
Zeca Peres
Quinta-feira, Abril 13, 2006
A Árvore
Rapinada Daqui
O jardineiro que contratei para me ajudar na poda do jardim, tinha terminado um difícil primeiro dia de trabalho.
Perdera uma hora com um pneu furado, depois a serra eléctrica dera o berro e por fim a sua velha carrinha recusou-se a trabalhar.
Enquanto o levava a casa, ele manteve-se em silêncio.
Quando chegámos, convidou-me a entrar para conhecer a família.
A caminho da entrada, parou ao pé de uma árvore, tocando nas pontas dos ramos com ambas as mãos.
Uma vez a porta aberta, parecia outro.Abraçou os dois filhos e a mulher com um sorriso radioso.
Depois acompanhou-me ao carro e, ao passarmos pela árvore, perguntei-lhe:
-Porque é que lhe tinha tocado?
-É a minha árvore dos problemas – respondeu - sei que não posso deixar de ter problemas no trabalho, mas uma coisa é certa - os problemas não têm nada a ver com a casa e a família.
Por isso penduro-os todas as noites quando chego a casa.Depois de manhã pego neles outra vez.
O mais engraçado é que, quando vou de manhã apanhá-los, não estão lá tantos como os que me lembro de ter pendurado - disse sorrindo.
Zeca Peres
Quinta-feira, Abril 06, 2006
Coincidências
Nada se move apenas a saia da cigana.
Está um calor de ananases.
Aqui as pedras são as flores do meu jardim.
Só pedras e areia, areia e pedras.
Chitas, vamos acampar?
Era isso mesmo que te vinha propor, mas com uma alteração.
Diz.
Vamos a pé.
Na boa, como o fim de semana é de quatro dias, até é capaz de ser engraçado.
Tudo preparado, lá vamos na aventura de acampar no deserto.
Aqui o céu esmaga-nos literalmente.
É de uma dimensão que arrepia.
O Chitas é um estudioso do universo.
Sabe tudo ou quase tudo e é contagiante ouvir falar das estrelas, constelações, planetas, Sol, lua....uf...
Cá para mim é uma pena tanto desperdício em ser armador de ferro.
Nada no universo é coincidência, diz ele.
Tudo se liga, vive, morre, e renasce.
Por isso não acredito em coincidências.
Somos geridos pelo astral e por ele alimentados.
Depois de uma noite bem passada, até houve a dança da morte.
Um círculo de pedras, um escorpião e fogo.
Sem fuga possível, o coitado lá teve de fazer haraquiri.
Ao meio da manhã já exaustos de calor, paramos com o intuito de montar o abrigo e descansar.
Um vulto minúsculo no horizonte.
Quem será?
Decidimos andar um pouco mais na direção do desconhecido.
Deve de ser um beduíno que vai à praça ou então à cafetaria para beber chá, diz o Chitas, sempre bem-disposto.
Mas.............espera aí............queres ver?
É o Menezes, Chitas.
Menezes?
Good afternoon.
Boa tarde Menezes.
Desculpe, mas como sabe o meu nome?
Tivemos na escola primária, os teus pais tinham uma papelaria e tinha-mos a mesma namorada.
Luis Luis.........
Zeca Peres









